No sábado passado levei meu filho de seis anos para assistir a “Toy Story 3”, um dos filmes infantis mais emocionantes que tive oportunidade de ver nos últimos tempos. Evitei ler as críticas. Apenas sabia que o terceiro filme da saga Toy Story encantava a todos. Assim como “UP, Uma Aventura nas Alturas”, “Toy Story 3” é uma história que agrada não só às crianças, mas também e, sobretudo, aos adultos. Ao mesmo tempo em que arranca gargalhadas do público (os diálogos são inteligentes e espirituosos), o filme é capaz de nos levar às lágrimas. O enredo é cheio de lições de vida, sem que isso resvale para o melodrama e os clichês.
Em “Toy Story 3” Andy, o dono dos brinquedos, cresce e está prestes a entrar na faculdade. A trama gira em torno do destino de Woody, Buzz e companhia. Serão doados para uma creche? Ficarão no sótão da casa? Ou irão para o lixo? É uma bela metáfora sobre os ciclos da vida. Vale muito a pena ver. Não vou ficar aqui contando o filme, pois não quero estragar a festa de quem ainda não conferiu. Quero, porém, dividir com vocês um pouco da reflexão que “Toy Story 3” provocou em mim. A reflexão sobre a magia e a importância da infância. Confesso que tenho um pouco de dificuldade de ver o tempo passando rapidamente e gostaria muito de congelar algumas fases da vida dos meus filhos. Seria maravilhoso se tudo parasse aos seis anos de idade, não? Quando olho, por exemplo, para Júlia, minha filha de 14 anos, essa sensação de que a vida caminha numa velocidade incrível vem à tona com força total.
Penso sempre que poderia ter aproveitado mais a infância dela. Tudo passou tão de repente. De repente, ela deixou de brincar de Polly e de Barbie para entrar no universo das paqueras e das baladas. Quando Júlia estava na primeira infância, os seis primeiros anos cruciais para o desenvolvimento infantil, eu trabalhava demais. Morava numa cidade maluca e estressante ao extremo, São Paulo, e muitas vezes não podia exercer minha maternidade como sonhava. Queria, na verdade, ter todo o tempo do mundo para ela, tempo e tranqüilidade para sentar no chão e brincar o dia inteiro com minha filha. Cogitei dar uma pausa na carreira para me dedicar apenas à tarefa de ser mãe. Não fiz isso e não me arrependo. Apesar da correria e das dificuldades da vida moderna, creio que sempre fui uma mãe presente, afetuosa e compreensiva (pelo menos essa é a minha percepção). No entanto, como toda mãe, sempre tenho a impressão de que estou em falta com meus filhos. Como diz uma amiga minha, a culpa materna é algo visceral. Vem junto com a placenta.
Com meu filho caçula, João Pedro, agora com seis anos, as coisas têm sido um pouco diferentes. Moro numa cidade com mais qualidade de vida, Brasília, em uma casa gostosa, que oferece grandes possibilidades de ele vivenciar a infância com bastante liberdade, e trabalho num ritmo menos alucinado. Portanto, acho que as condições atuais são mais favoráveis à intensa experiência de curtir cada descoberta e cada brincadeira do João – um menino extremamente lúdico, que ama correr, pular, jogar bola, subir em árvore, nadar, brincar (mesmo que seja sozinho), criar aventuras e mergulhar na fantasia do mundo das brincadeiras. Nem parece um garoto urbano. Só recentemente se interessou por videogames. E até agora não despertou para o computador.
A infância é mesmo um período mágico. Uma fase linda em que somos livres, leves, inocentes, desprovidos de sentimentos complicados como ganância, inveja, amargura, rancor. Olhe para o corpo de uma criança. Veja como ele é molinho, flexível, ágil. Na medida em que crescemos, desenvolvemos uma couraça. Nossos músculos e articulações endurecem. Travamos emoções. Perdemos a flexibilidade. Perdemos a leveza, a disposição, a criatividade e a coragem de encarar a vida de peito aberto, sem medo de se frustrar. Criança chora sem pudor, diz a verdade, abre um sorriso sincero e desarmado. Por que perdemos tudo isso?
Sugiro que façamos um esforço para resgatar, nem que seja só um pouquinho, essa leveza e essa magia. Sugiro que não deixemos que a correria do dia a dia nos impeça de curtir as brincadeiras dos nossos filhos. Sugiro a todos os pais e mães que estão lendo este texto: vivam, com intensamente, cada instante da infância de seus pimpolhos. Porque, apesar da nossa vontade, não dá para congelar esses momentos. Porque “a vida não tem replay”, como vaticina a minha prima Lia.