Irina McGovern é uma ilustradora de livros infantis. Mora em Londres com o marido, Lawrence Trainer, um intelectual da área de relações internacionais que trabalha num prestigiado centro de estudos. O casal tem uma relação sólida e tranquila de dez anos – estabilidade que começa a ser ameaçada quando Irina se vê numa encruzilhada: beijar ou não beijar o charmoso jogador de sinuca Ramsey Acton, amigo dos dois. Esse é o enredo do surpreendente livro “O mundo pós-aniversário”, de Lionel Shriver. A infidelidade é um dos temas mais recorrentes na literatura. Mas a diferença desta obra é a forma como a autora resolveu contar algo tão comum, tanto na ficção quanto na vida real. São, na verdade, dois livros em um só. Dois enredos construídos a partir da decisão tomada por Irina diante da possibilidade daquele beijo.
Com a criação desses dois universos paralelos, a escritora vai costurando o destino da protagonista, com alternativas distintas, dependendo da estrada escolhida por Irina. Trata-se de um drama psicológico, denso e intimista em que a personagem principal vivencia incertezas, inquietações, desafios, desejos, questionamentos e crises existenciais típicas das mulheres na faixa dos 40 anos. Por isso, recomendo o livro principalmente para as quarentonas e também aos quarentões (para que tentem decifrar a alma conflituosa de suas mulheres).
O interessante deste livro não é pensar apenas nas implicações que uma traição pode trazer à rotina dos envolvidos, e sim refletir sobre as inúmeras possibilidades de escolha que temos ao longo da nossa existência. Todos os dias nos vemos diante da necessidade de tomar decisões – das mais banais às mais complexas. Algumas pessoas já nascem cheias de certezas absolutas; outras são indecisas, inseguras e têm imensa dificuldade de decidir. É realmente uma tarefa difícil, porque escolher é também perder. É abrir mão de toda uma avenida para seguir por outra. E, cá entre nós, mesmo aqueles mais resolutos, seguros de que sempre vão percorrer a via correta, já se viram em situações em que as certezas pareciam ruir e o dilema apresentado era bem mais complicado do que a famosa dúvida entre “casar ou comprar uma bicicleta?”.
A lista de escolhas difíceis é enorme. Escolher entre dois empregos, ambos muito promissores. Escolher entre dois amores, ambos muito sedutores. Escolher entre a segurança e a paixão. Escolher entre tirar um ano sabático ou investir numa ascensão na carreira. Escolher entre duas profissões. Escolher entre casar ou ficar solteiro. Escolher entre ter filhos ou não tê-los. Escolher entre duas cidades para morar ou entre dois países. Escolher entre ficar na zona de conforto ou embarcar em novos desafios profissionais e pessoais.
Não importa a decisão tomada. Em todos os cenários a experiência nos mostra que não podemos olhar para trás. Temos que escolher, seguir adiante e deletar os caminhos alternativos. Não é fácil, porém, se livrar do espelho retrovisor. A quantidade de “e se...” que inunda a nossa mente quando precisamos tomar uma decisão importante é gigantesca. Sair desse turbilhão é fundamental para encontrar paz e felicidade na trilha eleita. Infelizmente, a vida não é um programa de milhagem em que acumulamos cada vez mais pontos. A vida é um eterno jogo de ganhos e perdas. Não tem escapatória. A cada escolha, ganhamos por um lado, mas perdemos, por outro.
Muitas pessoas consideram tudo isso uma grande bobagem porque simplesmente não acreditam que nós, seres humanos, tenhamos o livre arbítrio. É aquela história do destino. De tudo estar traçado, independentemente da nossa vontade. Apesar de achar que algumas coisas estão escritas e vão mesmo acontecer, preciso ter a sensação de que posso gerenciar minha vida. Sou controladora, “control freak”, como bem definiu a minha amiga Mariana Monteiro. Portanto, peço licença a todas as divindades que estão no comando do mundo: nos deem o gostinho de continuar fazendo nossas escolhas – simples, cotidianas, ousadas, conservadoras, complexas, confusas, erráticas... Nem que seja para, depois de pegar todos os atalhos possíveis e impossíveis, chegarmos ao lugar que já estava reservado para nós, cumprindo nossa missão terrena. Livre arbítrio e destino – uma combinação mais que perfeita.