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24
Jul



Como o vento

por Bárbara Vieira (*)

16
Ago

João Pedro, o pensador

Este é um post diferente. Não vou discorrer sobre nenhum assunto. Quero apenas compartilhar com vocês algumas das frases mais espirituosas do meu filho caçula, João Pedro, de seis anos. As crianças fazem comentários maravilhosos sobre o mundo a sua volta.

03
Ago

O inalienável direito de dizer NÃO

Fui criada para ser boazinha, comportada, educada, gentil, doce e feminina. Caçula de uma família de quatro filhas, quando criança era tímida, recolhida, calada e obediente.

24
Jul

Como o vento

     por Bárbara Vieira (*

    O medo bateu em minha porta. Naquele momento nada mais passava por minha cabeça a não ser as mesmas palavras que escutara no momento em que saí daquele casebre, ‘vá em frente, não tenha medo do novo nem tão pouco do seu próprio medo’.
Aquilo havia me pegado de surpresa e agora que estou aqui hei de seguir em frente, não vou deixar tudo se esvair com meio caminho andado, é aqui e agora, é agora ou nunca.

     Eu sentia uma tremenda necessidade de saber o que vinha me atormentando durante esses dias, que voz era essa que eu escutava no vento e simplesmente não via, o que era aquilo?

     Talvez eu estivesse morta, morta-viva, louca, ou talvez eu fosse simplesmente uma mediadora, quem sabe.
Tudo começou quando me mudei para esta maldita casa onde essa voz não sai de minha cabeça, fica me procurando, cerca-me e me diz o que fazer, não agüento mais, esse é meu lugar!

     Nunca tinha ouvido essa voz antes, mas o que me intriga é que não posso vê-lo, é sim, uma voz masculina, sedutora, doce, musical e apaixonante, pena que ainda assim não posso vê-lo. Como o vento.

     Sei que essa tal voz pode me escutar, todos os dias conversamos. Conversamos não, discutimos, porém não pode me ver. É como uma ilusão, uma fantasia, sei que está aqui. Tudo o que a incrível e repugnante voz me diz é ‘siga o que digo, você será feliz’.
Poxa, fui feliz até ela começar a me atormentar, dá pra ir embora, por favor?!

     Por isso brigamos, nunca aceitarei o que ela me diz.

     A primeira vez que a escutei estava sozinha contemplando minha nova vista do mar.

     Ele chegou como quem não quer nada e perguntou sobre mim e sobre minha vida. Contei, mas mesmo assim achei estranho.

     Depois ele começou com seus conselhos de ‘seguir em frente’. Daí em diante tudo o que temos são as mesmas discussões de sempre.

     E bom, os dias se passaram e minha preocupação com a tal voz fez co m que eu seguisse todos os passos que me dera. Ele me acompanhou até a metade do caminho, dessa parte em diante não conseguia ouvi-lo mais.

     De partida, fomos aos locais nos quais eu costumava ir quando morava nesta pequena cidade com minha família, locais nos quais costumava ser feliz. Fomos à praia, fomos ao parque, ao centro... Depois vem a parte em que ele me deixa, me deixa com medo, insegurança e raiva. Como pôde ele, me deixar aqui sozinha? Bom, seguiremos em frente. Ele me deixou em frente a uma pequena casa, simples, porém meramente bonita. Segundo ele, a senhora que mora nesta casa era a única pessoa capaz de me ver. Toquei na campanha e passaram-se uns três minutos até que a velhinha abrisse a porta, ela se arrastava, parecia fazer um esforço enorme. Ao abrir me pareceu estar surpresa, como se me conhecesse.

     Ela me explicou que o que deveria fazer era ir até a gruta onde todas as minhas dúvidas se esclareceriam dúvidas quanto à voz, que agora eu sei, seu dono se chama Jack.

     Ela, a voz, repetiu durante toda a conversa o quanto eu era bonita, como estava grata e emocionada, disse ainda que eu deveria seguir em frente e não ter medo do novo, nem do meu próprio medo. Deixou-me na porta, meio sem rumo, me disse para ir em frente.

     Bom, até ai meio caminho andado.

     Finalmente cheguei à gruta. Lá me sentei e pude ouvir a doce voz do Jack se aproximar, eu pude senti-lo ao meu lado, eu sabia que ele estava ali, podia até ouvir sua respiração, sentir seu cheiro, ainda assim, não podia vê-lo.

     Sua voz repetiu pra mim a mesma história da velhinha, sobre não ter medo.

     Foi aí que me dei conta de uma forte luz caindo sobre nós. Uma luz azulada, protetora, confortável.

     Eu pude vê-lo. Jack estava em minha frente, incrivelmente lindo, impecável, ele não dera uma palavra, sei que ele me via também.
Só então me dei conta de que aquele rosto, aquela voz já haviam feito parte de minha vida antes, eu o conhecia.

     Na verdade, eu o amava. Incondicionalmente. Nos olhos dele, eu via o amor também, porém além do amor, podia ver a dor e a saudade. Podia sentir tudo isso, e uma pequena confusão sobre como o tinha perdido e não o tinha reconhecido.

     Nesse momento ele sentia tudo isso também, e tomou-se a me explicar, enquanto isso, lágrimas caíam de seus olhos azuis, a dor tomava conta daquele rosto. Ele não precisou terminar a história, eu sabia o fim. O fim era frio, triste, gritante, doloroso, ruim e impiedoso.

     Como pode alguém nos separar? Como pode alguém querer ver o fim de dois destinos traçados juntos ir para um infinito escuro?

      Apenas alguém muito ruim desejaria isso. Não havia nada a ser feito. Sabíamos que um dia seríamos felizes novamente, desejávamos a felicidade enquanto o tempo e a luz iam embora.

     Fora a última vez que o tocara, a última vez que dissemos ‘eu te amo’. Suas últimas palavras foram as que ele havia me dito enquanto eu ainda estava viva, ‘o amor é como o vento, não posso vê-lo, mas posso senti-lo’. Minha citação preferida, que me recordara àquela tarde em que tudo estava colorido e, posteriormente àquela noite em que tudo ficou negro.

     A noite em que nossas vidas se afastaram pela eternidade, a noite em que nenhum de nós conseguiria ser feliz novamente.

     Apesar de tudo a morte é sutil, fria e leve. Ainda que dolorosa, posso senti-la de forma amadora, confortante e confiante. Ele há de voltar um dia. A dor há de passar e o amor há de voltar. Afinal, a esperança é a última que morre em todos os casos.
    

     (*) Bárbara Vieira, 14 anos, mora no Recife. Cursa o 10º ano no Colégio Marista São Luiz.



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