Meu marido costuma brincar comigo dizendo que sou uma falsa cearense. Isso porque nasci em Fortaleza e com apenas um ano de idade mudei para Brasília. Mas os laços com o Ceará se mantiveram fortes ao longo destes anos todos. Passei inesquecíveis férias em Fortaleza. São lembranças de um período mágico da minha vida: a infância e a adolescência. Voltar à cidade em que nasci é sempre um presente para a alma. Gosto de rever familiares e amigos de longa data. Gosto de revisitar Fortaleza, contemplar seu mar verde, o sol brilhando, sentir o cheiro da praia, o vento forte, degustar as deliciosas tapiocas da Francinete, cozinheira de mão cheia que trabalha há décadas para meus pais. Gosto de percorrer caminhos já conhecidos que, com o passar dos anos, apresentam-se diferentes ao meu olhar e causam, muitas vezes, certa estranheza.
Nos últimos anos tenho ido pouquíssimo a Fortaleza. Geralmente vou a trabalho e passo um curto período de tempo, o que me impede de aproveitar, com tranqüilidade, o que a capital cearense tem de melhor. Há alguns dias voltei à cidade – de novo em meio à correria do trabalho. Desta vez, porém, pude rever várias pessoas da minha família, o que acabou sendo uma experiência maravilhosa. Minha mãe, que é uma exímia anfitriã e adora receber, resolveu chamar vários familiares e amigos para um almoço na casa dela, em que o prato principal era um suculento baião de dois, iguaria típica do Ceará.
Foi um encontro delicioso e descontraído com pessoas que eu não via há anos: tios, tias, primos, primas e amigos dos meus pais. A sensação era a de que o tempo não tinha passado e que eu estava de volta à minha infância e adolescência, quando costumava passar os verões em Fortaleza. Por outro lado, ver meus primos com suas mulheres e filhos, dando início à outra geração da família, foi o passaporte para perceber que, sim, o tempo passou, e passou muito rapidamente. Senti um misto de felicidade e nostalgia.
Nostalgia de uma Fortaleza que não existe mais. Até porque eu também não sou mais aquela menina que adorava torrar no sol na Praia do Futuro o dia inteiro até ficar super morena, passear na Volta da Jurema e na Praça Portugal, badalar nas festas e boates da moda, passar o Carnaval no Morro Branco, ir a bares meio alternativos na Praia de Iracema como o Caisbar, entre tantos outros programas divertidos que fazia durante as férias. Tudo era motivo de festa. A vida era uma leveza só, como tem de ser quando se é criança ou adolescente.
Vejo Fortaleza hoje como uma cidade partida, repleta de contradições. Cresceu muito, sofisticou-se bastante, preparou-se para receber os turistas. No entanto, os contrastes se acentuaram absurdamente. Concentração de renda, de um lado; pobreza, desigualdade social e violência, de outro. Fico assustada ao ver que a Praia de Iracema, uma região que antes era reduto dos artistas e depois passou por uma bela revitalização, atualmente está abandonada, decadente e entregue ao turismo sexual. Na Praia do Futuro, hoje cheia de barracas com uma mega estrutura para os visitantes, não raro vemos turistas estrangeiros na companhia de meninas menores de idade. Circulando pelas mesas, crianças de quatro, cinco, seis anos vendem chicletes e balas. Cenário que choca, entristece, envergonha.
Mas Fortaleza é também uma cidade acolhedora, de gente simpática, trabalhadora, empreendedora. Um lugar lindo, que recebe os visitantes sempre de braços abertos, com sorriso nos lábios. É claro que a Fortaleza do passado, meio selvagem e inocente, não volta mais. Entretanto, é preciso resgatar algo que ficou perdido no meio do caminho desse crescimento desenfreado e mal planejado da cidade. É preciso, a meu ver, aliar a esse espírito alegre e aconchegante ações que sejam capazes de transformar Fortaleza num lugar seguro, gostoso, bacana e cheio de possibilidades para todo mundo – turistas e moradores de todas as classes sociais.