Já dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. Bem, concordo em parte com essa afirmação. Algumas unanimidades, para mim, não são burras. São maravilhosas. Por exemplo: torcer pelo Brasil durante uma Copa do Mundo. Adoro. Pode ser a seleção que for, quero mais é me divertir, curtir esse clima de euforia e falso “patriotismo” que só vivenciamos de quatro em quatro anos. Tenho amigos e um sogro que gostam de enfrentar essa unanimidade. Querem sempre torcer contra o Brasil por vários motivos – porque o técnico é um mala (caso de Dunga), porque não desejam ver o candidato do governo ganhando as eleições presidenciais ou por pura pirraça. Outra unanimidade que adoro são as festas de final de ano. Amo Natal e Réveillon. Gosto até mesmo da cafonice das confraternizações da firma. Mas, no quesito balada, tem uma unanimidade que detesto. São as Festas Juninas.
Sou nordestina, adoro quase tudo do Nordeste: a culinária (exceto coentro e cebolinha, que muitas vezes empesteiam o sabor dos pratos), a descontração e a simpatia do povo, as praias, o calor, o forró. Mas não me chamem para uma Festa Junina, por favor. Meu marido, coitado, um pernambucano de almanaque que simplesmente ama o chamado “São João”, fica frustradíssimo nesse período do ano. Só vou às Festas Juninas das escolas dos meus filhos e aí sigo bem direitinho o manual: fantasio os meninos, tiro fotos e fico toda coruja. Ainda bem que a minha filha mais velha, adolescente, está entrando numa fase ótima, ou seja, de ojeriza às Festas Juninas escolares. Que menina de bom senso. Puxou à mãe! E o caçula, de seis anos, já dá sinais de que percorrerá o mesmo caminho. “Pai, acredite, eu odeio Festa Junina!”, disse João Pedro, reclamando da obrigação de ir ao evento organizado pela escola. "No ano que vem, eu não vou, tá bom? A gente pode viajar e aí eu perco a Festa Junina", propôs.
Meu pernambucano de almanaque já quis me chamar para passar essa época do ano lá na terra dele nas cidades do interior que realizam Festas Juninas super tradicionais – e isso não significa nem Caruaru nem Campina Grande, onde ele crê que se faz Carnaval em data de São João. É interior mesmo, com direito a fogueira, milho assado na brasa, comidas típicas, roupas de chita colorida e quadrilha animada à sanfona de verdade. Eu, claro, nunca topei. Que mico. Detesto tudo em Festa Junina, a começar pelas guloseimas feitas a base de milho. Gosto do milho em si, mas odeio canjica, mungunzá e outras iguarias do São João. E o quentão, então, que coisa horrível! Cá entre nós, quem gosta daquela gororoba? Também detesto as quadrilhas, o casamento na roça, as pescarias, as prendas, a fogueira, as fantasias de caipira, o correio elegante. Tudo. Tudinho que se relaciona com Festa Junina está no meu índex.
Sei que alguns amigos vão me matar ao ler este texto. Mas já que isso aqui é um confessionário virtual, hei de ser perdoada, né, gente? Quando junho começa a chegar ao final, vem-me uma sensação de alívio, pois sei que está acabando essa tortura de Festa Junina e do povo insistindo para que eu compareça a algumas delas. O problema é que, de uns anos pra cá, resolveram estender esse calendário e inventaram as Festas Julinas. Que falta de imaginação, pelo amor de Deus. Continuo, porém, firme no meu propósito de não freqüentar nenhum desses tais folguedos. Nesse caso, sou do contra mesmo, sem medo de ser rabugenta.